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perdão tropical
29 de março de 2010, 10:29 pm
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Só porque fazia tempo que eu não punha minha cara pra falar as palavras alheias.

ERRATA: O festival que classificou Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores como segunda colocada é o III, para que não haja confusão entre os abusivamente letrados.

Me perdoem qualquer coisa.

Mas não quero o perdão divino. Do vizinho fanático que passou um envelope pela minha porta. “À moradora Hana do 52″. Continha um panfleto evangélico, que rasguei assustada. Seria esse um resultado de possessão diabólica? Não acho muito engraçado. A preocupação alheia com minha vida me ofende e afronta. Quem deixou o tal vizinho fazer planos para mim? Compreendo a “boa intenção”, mas somente se o autor do ato não compreender o quão autoritária e preconceituosa ela é. Sei que estava o envelope junto à minha porta e justo a ela e não a alguma outra, por ser eu a moradora “Hana” do 52. O que levou o prestativo senhor a concluir que é seu papel me oferecer o caminho de Jesus? O sexo, as drogas ou o rock’n’roll?

Pensei em deixar-lhe um recado, cerimonioso, sugerindo que respeite os hábitos de uma jovem artista em ebulição física e espiritual. Depois pensei em convidá-lo, pessoalmente, para uma gira de umbanda, mesmo eu nunca tendo frequentado esta, aquela ou qualquer igreja. Que tal ele se sairia?

E eu que quero sair para a aula e esta chuva não deixa? Careço de guarda-chuva e me aparece jesus cristo. Nada mais impróprio, ora essa.

“O meu destino
Foi traçado no baralho
Não fui feito para trabalho
Eu nasci pra batucar
Eis o motivo
Que do meu viver agora
A alegria foi-se embora
Pra tristeza vir morar” (Noel Rosa & René Bittencourt)