009


maldita maldade
24 de fevereiro de 2010, 3:58 am
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Desde o começo de 2009 eu preparava na panela da cabeça uma comédia rechonchuda e cor-de-rosa que eu chamava de chanchada frente aos amigos que tinham paciência de me ouvir. Emperrada, eu comecei uma outra estória, um humilde roteiro de curta, que serviria para me iniciar na arte de escrever sequências visuais que apenas desfilavam em minha cabeça enquanto eu ditava palavras às mãos.

Incrivelmente, acabei por arrepiada e molhada no rosto com o que escrevi. Ontem o argumento. Hoje terminei a primeira versão de um roteiro que decerto o diabo soprou em meu ouvido, com a anuência de deus, pel’amor. Se eu ficar me preocupando, piro novamente. Não sei, senhor, de onde saiu essa idéia, nem como ela apareceu pronta, finita, terminada e eloquente. Eu juro, porém, que foi concebida por mim. Me perco. Em minhas anotações manuscritas, tenho uma única pista: Novo Roteiro, é o que diz, e a partir de então uma idéia fechadinha feito cu apreensivo. Foi aparentemente no carnaval. Escrevi a idéia essencial e a  deixei esperando minha próxima solidão. Deu certo. Mas não me lembro de seu nascimento, assim como não me lembro de minha primeira trepada (mas lembro muito bem do rapaz, faço a ressalva para que o moço não se ofenda!).

Hoje passei por um moicano que dormia no chão com uma grande cicatriz de punhalada nas costas magras. Fico arrepiada outra vez. Eu ia mostrar tudo, minha coluna apunhalada e minha dancinha comemorativa para das vizinhas que me pegaram de palco desde que me mudei. Mas agora fiquei muito mais caprichosa. Desço a persiana e passo creme nos pés esfolados de quando andei descalça na rua, que havaiana nenhuma aguenta meu trote alucinado. Descompromisso com a inteligência? Supimpa! Ponho na bolsa meu primeiro compacto duplo do Simonal e saio fazendo a fina. Tropeço lá na praça da Sé, de havaiana arregaçada. Que compro para os meus pés? Eles não se portam como partes normais de um corpo.

Queria uma comédia comovente, comemorativa. Pensei que estava numa viagem de ácido cabulosa. Eu queria/quero/quis uma trilha erásmica. As mais comoventes e bonitinhas canções de Erasmo Carlos, embalando a vida de jovens hypados, análogos às pessoas que se aproximaram de mim em 2009. Mas nunca contei com minha vida. Eu tinha um radar fortíssimo que deus me concedeu porque sabia que eu ia apitar, como filha de Oxóssi que nasci desta feita. E misticismo, haja 2009. Larguei meu Tarot em Santos, que ele já estava me tentando pegar de escrava.

Minha chanchada sai! Ah, sim. Sou uma pessoa positiva, fiquei sabendo no ano passado. Me contaram de gravação, no rádio, direto do além. Um dia explico, por enquanto deixo os incrédulos crendo em alguma minha insanidade para eu poder gargalhar umas risadas nesse ínterim. Eu mesmo acreditei em uma espécie de insanidade, complexo de grandeza e toda essa palhaçada lantejoula. Trilha erásmica? Ora, veja! Pelo menos ele não é propriamente o panetone da rede globo de televisão. Mesmo assim um probrema. Como é que filma com a música alheia? E eu queria uma casa que não existia. Pois acabei conhecendo algumas delas, de nome, de voz e de espaço. Daí parei na minha. Eu viciada em Jovem Guarda, o homem lança um CD preto duca, um livro de memórias que ganho no natal. Parei na minha, já disse. Sou pára-raio muito calibrado. Meu complexo de grandeza se justifica tanto quanto aquele do rapaz de 40 anos do livro de Dostoiévski, que aliás inaugurou meu 2009 estraçalhando minha inocência junto com aquele maldito Beckett, outro todo cabra furado de faca. Poxa, eu era antes tão empolgada com as pessoas e brigava por causa de cisma. Hoje sou tão serena que é possível que me acusem de falta de graça.

Arena Conta Zumbi:

“E você que me prossegue

E vai ver feliz a terra

Lembre bem do nosso tempo

Deste tempo que é de guerra

“Veja bem que preparando

O caminho da amizade

Não podemos ser amigos

Ao mal vamos dar maldade

“Se você chegar a ver

Essa terra de amizade

Onde o homem ajuda o homem

pense em nós só com bondade”

Edu Lobo:

“Só quem não sabe das coisas
é um homem capaz de rir
ah, triste tempo presente
em que falar de amor e flor
é esquecer que tanta gente
tá sofrendo tanta dor”


MALDITA VADIA está vivo. Tem horas de vida. E é negativo, que nem Exú de cueca suja. Mas taaaão engraçado.

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