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sinto muito, não podemos ser amigos

não gostei nada do que vi. e não gostei de nada do que vi. o resto, não vi e não gostei. São Paulo, túmulo do samba. túmulo do róque. São Paulo às vezes parece mesmo uma sepultura destampada. eu que vivo no Bexiga, posso dizer que o samba & o rock não tem nada a ver com isso. agora, você passando o viaduto Martinho Prado e se empenhando na má idéia de subir a Augusta, vai encontrar em profusão caricaturas animadas de cadáver sem caixão.

afetação adolescente crônica ou distúrbio de personalidade mal diagnosticado, o caso é que aquelas pessoas trabalham para pagar suas fantasias. não me admira que desprezem o carnaval. devem se considerar uma espécie de vanguarda pós-carnavalesca. Carniceria, o point da carniça. realmente só encontrei carne podre. podem me chamar reacionária, Nelson Rodrigues, será a massagem que meu ego pede, depois de ficar espremido e enojado entre “convidados exóticos”, assim chamados pelos empregados da casa, localizada na Rua Augusta, o reino mal-assombrado da afetação adolescente – ou balzaquiana, para ser mais exata e justa.

oh meu deus!, acho que dessa vez não vai dar pra ser tão otimista. por que usar tapa-olho aquele que nunca enxergou? entre piratas, peruas, aparentes covers de village people e pessoas com objetos diversos presos na cabeça e calçados difíceis de entender, imagine para calçar!, nos pés, eu aguardei 60 traumatizantes minutos por um evento que não aconteceu, pelo menos diante de meus olhos, provavelmente os únicos que funcionavam direito naquele recinto – sem modéstia e muito menos medo de pecar por arrogância, tenho o benefício da certeza no que digo desta vez!

ironicamente, fui convidada para ver a estréia de um curta metragem. a estampa do convite: gosto duvidoso. o título: duvidosíssimo. uma produção “Neon Terror”. puxa vida, interessante. ingenuamente atraída pelas declaradas influências, a saber, Zé do Caixão, cinema marginal dos 70, pornochanchada &, essa eu deduzi, coberta de boa intenção, o neon-realismo da noite paulistana de 80, fui! pintei lá pra saber, levando meu rostinho bonito & meu corpinho sedutor de garota papo firme. não havia outro lugar mais desgraçado para eu estar naquele momento. decorado a facas, machadinhas, cutelos, facões e animais empalhados, o templo do mau-gosto que procurei evitar ficando plantada na porta, era pinto perto das aparições que entravam, fumavam e se saudavam efusivamente com esganiçados gritos histéricos que turvavam a audição já modestamente castigada pelo “neo-cowntry-punk-progressivo”, ou seja lá a merda que esse povo finge que ouve enquanto sai pra mostrar as penas novas do cocar que trouxe de Nova Iorque. um telão pequeno mostrava exaustivamente corridas de automóveis antigos, nada mais demodê, e o idoso slogan “live fast die young”, infelizmente desobedecido por 70% dos frequentadores da casa, que poderiam, agindo de modo diverso, amenizar meu trauma da noite passada. saí, antes do que esperava ser o ato final, mais do que abatida, abalada. o filme? não vi. e odiei. ser feioso é glamour demais pra mim.

poderiam, dentro daqueles aqueles corpos repugnantes ornados de objetos inverossímeis, olhos cobertos por, quando não tapa-olhos, igualmente desnecessários óculos aro de tartaruga, se identificar com a saúde do sexo praticado pela gostosa Branca das Neves ou pelo ingênuo Homem de Itu, muito embora santista como eu? aceitariam a dolorosa sugestão de que se assemelham divertidamente às bananeiras cenográficas dos musicais da Atlântida?

teriam, por descuido, ouvido alguma vez, no meio daquela gritaria neurótica, Mojica dizer que “Viva o Horror generoso e poético“?

eles sabem quem é Jairo Ferreira?

por que então a má fé de declarar influências mentirosas, inadvertidamente, atacando com desleixe a inteligência e a boa vontade de possíveis convidados que não estivessem saindo de uma cova destampada?

porém papai do céu é um carinha bacana. ainda na mesma noite, mesmo assombrada e sem dinheiro, encontro os meus e vamos alegremente sambar com os inofensivos e bonitinhos “hippies madá” no obscuro Bom Retiro. cerveja gelada. cachaça e baseado. uns baita duns vozeirão. caldinho de feijão. com linguiça, cadáver na comida, sem essa, não tenho pressa. delícia de carne morta, a única que encontrei no bendito túmulo do samba, cheio de viventes improvisando Partido Alto e exaltando Ataulfo Alves. tudo lindo. tenho um estranho tesão por pessoas bonitas. garotas de vestidos floridos e cabelões voluptuosos emoldurando rostos corados, rapazes de sapato sem salto e camisas abertas ou camisetas furadas. sou muito atrasada. adoro homens. por que me condenariam os viados, se eu não sou obrigada a sentir atração por eles, assim como eles não sentem por mim? por preconceito & maldade, estou gorfando pra eles. de modo similar, Rua Augusta, você não serve pra mim.

“Viva qualquer coisa” não é viva qualquer merda.

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Perrdeu um Chorinho de primeira qualidade e casa cheia. Lindo lindo. Só pra completar o fim de semana de (ótima) música brasileira sem gastar nenhum tostão. Só faltou uma querida.

Comentário por nasaladejantar




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